sexta-feira, 6 de abril de 2012

Na Sexta-feira Santa os passarinhos não cantavam

O Cristo morto, Annibale Carracci, 1582
Minha tia-avó foi criada numa grande casa de fazenda no interior de Minas. Ela contava que na Sexta-feira Santa não se trabalhava, sequer se passava uma vassoura no chão das casas. As mulheres não penteavam o cabelo, amarravam apenas um pano na cabeça.

Até os passarinhos pareciam respeitar a data em silêncio. Se bem que, nesse caso, minha tia tinha uma explicação. Com a inatividade da fazenda, o silêncio aquietava a passarada, sem ruídos que estimulassem seus pios.

Já as minhas lembranças evocam o convite do meu pai para acompanhá-lo à Matriz numa situação insólita. Afinal não era domingo e o início de tarde não era hora para se ir à igreja. A fila se estendia até a calçada lateral. A imagem do Senhor Morto ficava no centro da nave. O silêncio e o ambiente de veneração causavam uma impressão profunda. Uns instantes de oração e contemplação diante da imagem e no final beijávamos uma das fitas coloridas que se estendiam até o Corpo do Senhor.

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