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quarta-feira, 18 de abril de 2012

E o Cardeal não dançou o rap!


O vídeo acima é uma mensagem pela Páscoa do Cardeal Dolan, de Nova York. Vê-se que é feito para o público jovem, um breve recado:
Talvez vocês pensem que essa Páscoa vai ser especial para mim por ser a primeira como Cardeal, mas não vai. A Semana Santa e a Páscoa sempre foram especiais para mim desde criança.
E o que são essas celebrações? Em última análise estamos falando de passagem. A natureza está passando do inverno para a primavera, nossos vizinhos judeus estão celebrando a Páscoa, Jesus passou da Sexta-feira Santa para o domingo de Páscoa e nos convidou a fazer o mesmo. Ele diz: veja, assim como eu passei da morte para a vida, da Cruz para a Ressurreição, estou convidando VOCÊ para passar comigo!
Então, VOCÊ, mate o egoísmo, mate a falsidade, mate as mentiras, mate o pecado... e passe para a renovação, a liberdade, a graça, a misericórdia, o amor, a virtude, a bondade. Então, é tudo uma questão de passagem, certo?
Portanto, boa primavera, boa Semana Santa e Páscoa e boa passagem! Que Deus lhe abençoe!
O conteúdo não é um tratado de teologia, mas o recado está dado de forma simples, direta e compreensível por todos: passar do que é ruim para o que é bom. Tem uma grande virtude: a concisão. Tirando os efeitos na abertura e o encerramento, tem 60 segundos líquidos. O homem é capaz de se virar nos 30 (x 2).

Mas o que me chama a atenção é a forma. Feito para jovens, mas sem se rebaixar, querendo parecer (o que não é) um deles:
- não se veste como jovem, não põe nem um adereço, um boné, uma camiseta. Não usa um clergyman descolado, uma camisa de padre com estampa quadriculada
- não usa gírias ou gestos de jovens

E mais importante do que os nãos são os sins: 
- é persuasivo, bem humorado, descontraído e simpático ao falar
- coloca-se próximo de quem ouve, tem empatia
- é enfático, tem verve, fala com o coração

Não acredito que o vídeo tenha bombado no twitter ou no facebook, mas acho que traz características que costumam faltar nas pregações que assisto.

Cada pregador tem suas características, nem todo mundo tem talento para falar com o desembaraço que vemos no vídeo. Para citar um exemplo, o Papa tem um estilo totalmente diferente, e cativa os ouvintes de outra forma. Mas é bom de vez em quando considerarmos outros paradigmas e estilos, que não apelam nem ao discursinho barato simpático e populista nem à clássica retórica eclesiástica meio pesadona.

sábado, 7 de abril de 2012

O único dia alitúrgico do ano


A Sexta-feira Santa é o único dia alitúrgico de todo o ano, pois é expressamente proibido celebrar Missa nesse dia.

A rigor o Sábado Santo também seria um dia alitúrgico, pois há apenas a celebração da Vigília Pascal, que corresponde ao domingo e, inclusive, antigamente era celebrada somente após a meia-noite.

Imagens da Sexta-feira Santa

Procissão em Porto Príncipe, Haiti,
com o palácio presidencial  danificado pelo terremoto ao fundo

Procissão em Nova York,
cruzando o East River pela ponte do Brooklyn

Carpideiras na procissão de Romont, Suiça

Procissão em Abidjan, Nigéria

 Cardeal Vingt-Trois na procissão em Paris

Procissão em Jammu, Índia

Sexta-feira Santa em Cuba

Procissão em Havana 
Depois de mais de cinquenta anos, os cubanos puderam celebrar o Sexta-feira Santa em um feriado. O Papa, em sua recente visita ao país, havia solicitado ao governo essa concessão.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Stabat mater dolorosa, Estava a Mãe dolorosa



Stabat mater dolorosa
juxta Crucem lacrimosa,
dum pendebat Filius.

Cuius animam gementem,
contristatam et dolentem
pertransivit gladius.

O quam tristis et afflicta
fuit illa benedicta,
mater Unigeniti!
Estava a Mãe dolorosa
junto da Cruz, lacrimosa,
da qual pendia o seu Filho. 
Banhada em pranto amoroso,
neste transe doloroso,
a dor lhe rasgava o peito. 
Ó quão triste e quão aflita
se encontrava a Mãe bendita,
chorando o seu Unigênito.

Crux fidelis, Ó Cruz fiel


Crux fidelis, inter omnes arbor una nobilis,
nulla talem silva profert flore, fronde, germine,
dulce lignum dulce clavo dulce pondus sustinens.

Pange, lingua, gloriosi proelium certaminis
et super crucis trophaeo dic triumphum nobilem,
qualiter redemptor orbis immolatus vicerit.

Crux fidelis, inter omnes ...

De parentis protoplasti fraude factor condolens,
quando pomi noxialis morte morsu corruit,
ipse lignum tunc notavit, damna ligni ut solveret.

dulce lignum dulce clavo ...

Aequa Patri Filioque,inclito Paraclito,
sempiterna sit beatae Trinitati gloria,
cuius alma nos redemit atque servat gratia.

Crux fidelis, inter omnes ...

Ó Cruz fiel, entre todas a árvore mais nobre:
Nenhum bosque produz igual, em ramagens, frutos e flores.
Ó doce lenho, que os doces cravos e o doce peso sustentas. 
Canta, ó língua, o glorioso combate [de Cristo],
e, diante do troféu da Cruz, proclama o nobre triunfo:
a vitória conseguida pelo Redentor, vítima imolada para o mundo. 
O Criador teve pena do primitivo casal,
que foi ferido de morte, comendo o fruto fatal,
e marcou logo outra árvore para curar-se do mal. 
Glória e poder à Trindade, ao Pai e ao Filho louvor,
honra ao Espírito Santo, eterna glória ao Senhor,
que nos salvou pela graça e nos reuniu no amor

Via Sacra com o Papa no Coliseu

Papa durante Via Sacra de hoje
(...) Nas tribulações e dificuldades, não estamos sozinhos; não está sozinha a família: Jesus está presente com o seu amor, sustenta-a com a sua graça e dá-lhe a força para prosseguir, enfrentando os sacrifícios e superando qualquer obstáculo. E, quando os desvarios humanos e outras dificuldades põem em risco e ferem a unidade da nossa vida e da nossa família, é para o amor de Cristo que devemos voltar-nos. O mistério da paixão, morte e ressurreição de Cristo encoraja-nos a continuar com esperança. Se forem vividos com Cristo, com fé n’Ele, os dias de tribulação e de prova trazem já dentro de si a luz da ressurreição, a vida nova do mundo ressuscitado, a páscoa de todo o homem que crê na sua Palavra.

(...) Confiemo-nos à Mãe de Cristo. Ela que acompanhou o seu Filho ao longo da via dolorosa, Ela que esteve aos pés da Cruz na hora da sua morte, Ela que encorajou a Igreja desde o seu nascimento a viver na presença do Senhor, conduza os nossos corações, os corações de todas as famílias, através do vasto mysterium passsionis rumo ao mysterium paschale, rumo à luz que irrompe da Ressurreição de Cristo e manifesta a vitória definitiva do amor, da alegria e da vida, sobre o mal, o sofrimento e a morte. Amém.

~ Papa Bento XVI, Via Sacra, 6 de abril de 2012

Impropérios da Sexta-feira Santa


Ó meu povo, que te fiz Eu?
Ou em que te contristei?
Responde-Me!
Porque Eu te tirei da terra do Egito,
preparaste uma Cruz para o Teu Salvador.

Ó Deus Santo, Santo e Poderoso, Santo e Imortal, tende piedade de nós.

Porque Eu te conduzi quarenta anos pelo deserto,
te alimentei com o maná e
te introduzi numa terra esplêndida,
preparaste uma cruz para o Teu Salvador.

Ó Deus Santo, Santo e Poderoso, Santo e Imortal, tende piedade de nós.

Que mais devia ter feito por ti, e não fiz?
Eu te plantei como vinha escolhida e preciosa:
e tu te fizeste amarga para Mim;
vinagre Me deste a beber na Minha sede,
e furaste com uma lança o lado de Teu Salvador.

Ó Deus Santo, Santo e Poderoso, Santo e Imortal, tende piedade de nós.

O Cristo da Boa Morte


Na Jornada Mundial da Juventude do ano passado, o Cristo da Boa Morte da Irmandade de Mena (Málaga) foi levado a Madrid para integrar a Via Sacra em que participou o Papa.

O Cristo da Boa Morte (esta imagem da Irmandade de Mena) é o padroeiro da Legião Estrangeira Espanhola. Toda Quinta-feira Santa, há cerca de oitenta anos, os Legionários participam do cortejo da imagem em Málaga. O vídeo abaixo mostra a bonita e tradicional cerimônia de translado da imagem da Igreja de São Domingos, seu local de veneração habitual, até a sede da Irmandade, onde é colocada no andor que sairá em procissão.


Os soldados cantam o hino El novio de la muerte, que tem como estribilho:
Soy un hombre a quien la suerte
hirió con zarpa de fiera;
soy un novio de la muerte
que va a unirse en lazo fuerte
con tal leal compañera.

A Paixão de Cristo: Hino em aramaico


O aramaico, língua sagrada, foi utilizado por Jesus.

Copiando-se o título (em árabe) do vídeo no Google Translator, o resultado é Eu sou a Mãe do Bom.

dica: Orbis Catholicus Secundus 

Na Sexta-feira Santa os passarinhos não cantavam

O Cristo morto, Annibale Carracci, 1582
Minha tia-avó foi criada numa grande casa de fazenda no interior de Minas. Ela contava que na Sexta-feira Santa não se trabalhava, sequer se passava uma vassoura no chão das casas. As mulheres não penteavam o cabelo, amarravam apenas um pano na cabeça.

Até os passarinhos pareciam respeitar a data em silêncio. Se bem que, nesse caso, minha tia tinha uma explicação. Com a inatividade da fazenda, o silêncio aquietava a passarada, sem ruídos que estimulassem seus pios.

Já as minhas lembranças evocam o convite do meu pai para acompanhá-lo à Matriz numa situação insólita. Afinal não era domingo e o início de tarde não era hora para se ir à igreja. A fila se estendia até a calçada lateral. A imagem do Senhor Morto ficava no centro da nave. O silêncio e o ambiente de veneração causavam uma impressão profunda. Uns instantes de oração e contemplação diante da imagem e no final beijávamos uma das fitas coloridas que se estendiam até o Corpo do Senhor.

Eu era vizinho da Verônica


Quando pequeno, sabia logo que a Semana Santa ia chegando: começavam os ensaios da minha vizinha. Toda noite o piano entrava em ação:
O vos omnes qui transitis per viam:
attendite et videte si est dolor sicut dolor meus. 
Oh vós todos que passais pela via:
Vinde e vede se há dor como a minha dor.
Já não me lembro se era em latim, português ou bilíngue, mas não me esqueço da impressão profunda deixada pelo cântico. A procissão era na Sexta-feira à noite e o silêncio era impressionante, apesar da multidão que se espremia nas calçadas. A Verônica vinha toda de preto, com o rosto velado. De tempos em tempos a procissão parava, ela subia em uma banqueta e entoava seu canto plangente e pungente, desenrolando vagarosamente o véu com a Santa Face.

Minha mente infantil não cansava de admirar a metamorfose da simpática vizinha, cujo pacato dia-a-dia tanto contrastava com a personagem em que se transfigurava. Meu avô passava na procissão, com a opa roxa da Irmandade, ladeando o andor do Senhor com a Cruz às costas. Minha avó vinha de preto e de véu, numa longa fila de senhoras levando uma vela acesa nas mãos.

Ecce Lignum Crucis


Ecce lignum crucis, in quo salus mundi pependit.
Venite adoremus. 
Eis o lenho da cruz, do qual pendeu a salvação do mundo.
Vinde, adoremos!

quinta-feira, 5 de abril de 2012

A Missa é a Igreja envolvida pelo abraço da Cruz


Outro excelente texto, como sempre, de Dom Mark Kirby:

Em meio ao silêncio
O relato da Paixão mergulha-nos no silêncio. A Palavra foi silenciada. Somente um tolo se atreveria a falar. Talvez não devesse haver homilia hoje. Qualquer coisa menos do que a palavra do silêncio é indigna da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, qualquer coisa a mais é supérflua. Se sou tolo a ponto de pregar hoje, é por causa do silêncio: a palavra do silêncio, a palavra no silêncio. Como São Paulo, "eu me apresentei em vosso meio num estado de fraqueza, de desassossego e de temor" (1 Coríntios 2:3). Ao oferecer estas poucas palavras, meu único objetivo é guiá-lo para o porto da imensa e solene quietude.

O Mistério da Cruz
A Cruz revela seu mistério apenas para aqueles que se deixam elevar aos seus braços toscos e aceitam prontamente o seu abraço. O poder e a sabedoria de Deus estão ligados para sempre à fraqueza e à loucura da Cruz.

Nos braços da Cruz
A maioria de nós sente repulsa pela cruz. Vivemos com medo do sofrimento. Desejamos contemplar a cruz à distância, colocá-la em nossas paredes ou usá-la em uma corrente em nossos peito. É completamente diferente ser elevado em seus braços, render-se ao seu abraço e lá permanecer nu, exposto e vulnerável. Os santos são unânimes em testemunhar que para aqueles que se rendem ao abraço da cruz e lá ficam, ela se torna a Àrvore da Vida, o Leito Conjugal, e o Altar do Sacrifício.

Meu jugo é suave
Um antigo texto Litúrgico descreve o início da Semana Santa como um navio chegando ao porto. A Cruz de Cristo é o nosso refúgio e o nosso descanso. Nosso Senhor nos fala e diz: " Vinde a mim, vós todos que estais aflitos sob o fardo, e eu vos aliviarei. Tomai meu jugo sobre vós e recebei minha doutrina, porque eu sou manso e humilde de coração e achareis o repouso para as vossas almas" (Mt 11:28-29).

A vontade do Pai é sempre Amor
O jugo suave de Jesus é feito do lenho da Cruz. Aqueles a quem Ele escolheu encontram descanso junto a Ele nos braços da Cruz. Quando resistimos e lutamos contra a cruz, nos condenamos a uma longa agonia sem descanso, dizendo como Jó: "Minhas entranhas abrasam-se sem nenhum descanso, assaltaram-me os dias de aflição." (Jó 30:27). Quando nos rendemos ao abraço da Cruz, descansamos com Jesus na vontade do Pai. Descobrimos que a vontade do Pai é sempre Amor, e assim começamos a rezar: "Pai, não se faça, todavia, a minha vontade, mas sim a tua." (Lc 22:42).

Árvore da Vida, Leito Conjugal e Altar
A Cruz é a "árvore plantada na margem das águas correntes: dá fruto na época própria, sua folhagem não murchará jamais. " (Sl 1:3). Ardendo com o fogo do Espírito Santo, a Cruz é a sarça que Moisés viu a "queimando e ainda não consumida" (Ex). A Cruz é o Leito Conjugal em que Cristo, o Esposo, e sua noiva, a Igreja, consumam seu amor. A Cruz é o altar do qual se eleva um sacrifício fragrante: a imolação do Cordeiro que tira os pecados do mundo.

A Missa
Como vamos passar da luta para o descanso, da tempestade para o porto? Como vamos passar do deserto árido para a Árvore da Vida, do isolamento para a comunhão? Como vamos passar do degrau para o altar e do altar para Deus? Pela Cruz. A Semana Santa é o tempo da nossa grande passagem: das trevas à luz, da tristeza à alegria, do tempo à eternidade, da morte à  vida. Se você deixar para trás a podridão de seus pecados, e as trevas da mentira, e o horror de tudo que agride a inocência e ultraja a Face do Amor, então deixe-se levar à Cruz. Para cada um de nós, e em cada Missa, Nosso Senhor oferece o lenho medicinal da Cruz. O Santo Sacrifício da Missa é o lugar, e os meios, e o preço da nossa Páscoa; a Missa é a Igreja envolvida pelo abraço da cruz.

Venha e se renda
Se você está cansado, venha para o altar, render-se ao abraço da Cruz. Se você está isolado e com medo, venha para o altar, render-se ao abraço da Cruz. Se você está amargurado ou machucado ou despedaçado, venha para o altar, render-se ao abraço da Cruz. Se, apesar de seus pecados, você tem fome e sede de santidade, venha para o altar, render-se ao abraço da Cruz. Se você gostaria de fazer de sua vida uma oferenda digna de Deus, venha ao altar, render-se ao abraço da Cruz. Se você deseja conhecer a alegria da ressurreição, venha ao altar, render-se ao abraço da Cruz.

Rumo ao Oitavo Dia
No tempo de uma semana, tendo passado dos sete dias de tempo mensurável para o Oitavo Dia, o Dia que nos libertará para sempre da tirania do tempo medido em função da aproximação da morte, vamos saudar o festival dAquele que triunfa sobre o inferno e detém as estrelas do céu em sua mão (cf. Salve, Festa Dies, Hino processional da Páscoa).

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Pueri Hebræorum, volta ao mundo 2012


O autor irlandês James Joyce em uma de suas obras descreveu a Igreja Católica com a expressão Here comes everybody, isto é, Aí vem todo mundo ou Lá vem a galera.

Alguns podem enxergar isso de forma pejorativa. No entanto, penso que essa diversidade é uma das forças da nossa Igreja. O vídeo acima mostra a galera que vai estar dando as cartas dentro de uns 50 anos, para o bem ou para o mal. Aliás, com a ajuda do Espírito Santo, vai ser para o bem.

domingo, 1 de abril de 2012

Domingos de Ramos, Procissões em Sevilla


Domingo de Ramos, Pueri Hebræorum


Pueri Hebræorum,
portantes ramos olivarum,
obviaverunt Domino,
clamantes et dicentes:
Hosanna in excelsis. 
Pueri Hebræorum
vestimenta prosternebant in via
et clamabant dicentes:
Hosanna Filio David,
benedictus qui venit in nomini Domini 
Trazendo em suas mãos ramos e palmas,
em alta voz cantavam em sua honra:
bendito és tu que vens com tanto amor!
Hosana nas alturas!